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Deus e o Diabo em uma página de roteiro


Glauber Rocha escrevendo em máquina de escrever, com cigarro na mão, concentrado no processo criativo de roteiro.
Glauber Rocha roteirista...

Em Vitória da Conquista, ainda criança, eu sempre ouvia alguém mencionar o nome “Glauber Rocha” em conversas — não como cineasta, mas pelo contexto local e momentâneo. De kombi no centro da cidade, meu pai apontava: “Olha, a casa da família do Glauber Rocha.” Passando diante da Igreja Monte Sião, minha mãe dizia: “Era a igreja que a mãe do Glauber frequentava.”


Não fazia ideia de quem era esse tal Glauber! Ninguém nunca parou para me explicar. Cinema, para mim, eram as histórias da Sessão da Tarde, os filmes dos Trapalhões e Uma Cilada para Roger Rabbit no Cine Madrigal.


Muito mais tarde, já morando em São Paulo, já picado pelo veneno do cinema, assisti Deus e o Diabo na Terra do Sol. Entendi quem era Glauber. Me martelava a frase mais repetida de Glauber: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.” Era rápida, urgente, quase telegráfica. Mas será que foi só isso que ele precisou para fazer aquele épico?


Antes de entrar na faculdade de cinema, eu já sabia o que queria desde os 16 anos. Mas estudar cinema no Brasil era tarefa árdua: opções públicas raras e faculdades particulares mais caras que um curso de medicina. Recém-saído da escola pública, levei três longos anos para passar no vestibular.


Numa madrugada, vi um filme que mudou minha vida (como mudou a de muita gente): Tesis, de Alejandro Amenábar. Um thriller perfeito ambientado numa escola de cinema. Abriu meus horizontes. Eu podia fazer cinema de outros modos. Arrumei emprego numa locadora de vídeo. Perambulava por eventos, videoclubes, Sesc — tudo o que fosse gratuito em São Paulo.

Com a grana da rescisão da locadora, comprei minha primeira câmera. Finalmente: uma câmera na mão. Ideias não me faltavam. Mas logo entendi que só isso não bastava para fazer cinema.


Autodidata, era rato de bibliotecas e videotecas. Um dos meus refúgios favoritos era a Biblioteca do Sesi, no subsolo do “prédio grávido”, cartão-postal da Av. Paulista. Numa dessas incursões pelo labirinto gelado de prateleiras, encontrei um livro na seção de ROTEIROS.


Era um catatau de capa dura verde, porque a original já tinha evaporado faz tempo. Ao abrir, descobri: era o roteiro de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Não um roteiro como conhecemos hoje, mas um complexo e pessoal planejamento, com rascunhos, desenhos, referências… ainda assim, era um roteiro.


Então não era só uma ideia na cabeça…


Hoje parece óbvio que o roteiro é essencial no audiovisual, mas nem sempre foi assim. Até pouco tempo, quase ninguém sabia do que se tratava essa profissão. Roteiristas, ainda são em grande parte ilustres desconhecidos. Os diretores, por tradição, levam os ônus e os bônus da autoria de um filme.


Há razões para isso. A ideia de “câmera na mão” remete às postulações da Cahiers du Cinéma, ao conceito da “câmera-caneta” — a noção de que o diretor é um autor absoluto, usando a câmera como um escritor solitário usa uma caneta. No sistema clássico hollywoodiano, o diretor era suplantado pelos estúdios e produtores; o que a Cahiers defendia é que diretores também têm estilos próprios e devem ser reconhecidos como autores.


A ideia do diretor como autor valorizou a expressão pessoal no cinema, mas apagou que um filme é, de fato, um trabalho coletivo. E, nesse núcleo de autoria, lado a lado com o diretor, está o roteirista — que antes de qualquer câmera ligada já criou o universo, os diálogos e os conflitos que o resto da equipe vai levar para a tela. No cinema, a caneta quase nunca está na mão de uma só pessoa.


Mas o roteiro do Deus e o Diabo que encontrei naquele dia no Sesi, mostra que, mesmo na energia bruta e revolucionária do cinema de Glauber, havia método, preparação, escolhas, estrutura — havia desenvolvimento. E o desenvolvimento leva tempo. O espontâneo é planejado e dá trabalho!


Aliás, a gente acredita que todo diretor deveria saber escrever — não necessariamente para assinar o próprio roteiro, mas para organizar ideias, estruturar cenas e visualizar a narrativa antes de filmar. Sem isso, corre o risco de depender de traduções imprecisas do que tem na cabeça. Saber escrever é também a melhor forma de ter clareza sobre o que quer.


Fazer um filme não é um ato instantâneo: exige meses, às vezes anos de trabalho, reescrita, pesquisa, revisões, amadurecimento. É como erguer uma cidade.


Ao longo desses anos, conheci e convivi com cineastas que parecem querer emular Glauber ou usam seu nome como escudo, avessos ao roteiro, defendendo uma espécie de improviso permanente e uma estética “livre” — mas livre de quê? Talvez do compromisso, planejamento, clareza e, principalmente, do rigor que Glauber tinha com seus processos. O resultado, muitas vezes, são filmes frágeis, com uma linguagem anacrônica, umbilical ou panfletários.


A câmera na mão pode até capturar o instante, mas o roteiro — mesmo que atípico, fragmentado, rabiscado — sustenta a visão e dá forma ao caos. Glauber não improvisou o sertão em Deus e o Diabo: ele o construiu, linha por linha, com sua inteligência, intenção, repertório e memória, antes que fosse imagens e sons. 


Sem o tempo do desenvolvimento do roteiro, até a ideia mais brilhante corre o risco de se perder no vento.





 
 
 

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